5 de set de 2008

Headbangers de Bagdá



Não, isso não é o título de um filmezinho estilo Sessão da Tarde. É algo bem real, e o retrato de uma realidade bastante dura...

Esses dias, a revista IstoÉ trouxe uma reportagem sobre as dificuldades e riscos pelos quais passam as bandas de heavy metal nos países árabes. SIM, também se bangueia nas terras dos discípulos do profeta Maomé, e muito!

Com a popularização da internet nos países árabes, tem se tornado uma cena cada vez mais comum ver nas ruas das principais cidades do Oriente Médio um grupo chamado de muhajababes (muhaja = 'véu' em árabe), moças muçulmanas que combinam os tradicionais véus da cultura islâmica com as indefectíveis camisetas pretas com a logo de uma banda!

A população de alguns países do Oriente Médio é composta atualmente por mais de 50% de jovens com até 25 anos. Na sua grande maioria resistentes ao radicalismo religioso imperante nos governos ou no ritmo de vida social, essa porção da população árabe têm encontrado no heavy metal uma forma de externar sua rebeldia com os dogmas impostos pela sua cultura, criando uma série de paradigmas muito complicados por aqueles lados.

Se pra nós, aqui do Ocidente, o ato de fazer chifrinhos com as mãos em um show ou balançar a cabeça ao som de Pantera no último volume já fazem parte da culta banger e são gestos vistos de forma despretensiosa, por lá o mesmo pode dar cadeia!!! Pros fundamentalistas islâmicos, tais gestos inferem em “ofensa às Leis de Deus (Alá)”, assim como simplesmente ouvir o gênero musical de Bruce Dickinson e Luca Turilli.

Antes de tacharmos preconceituosamente os caras, é preciso entender a cultura deles: a adoração a Satã é, pra eles (fundamentalistas), a porta escancarada para a depravação mental e moral da pessoa. E balançar a cabeça lembra o gesto praticado pelos judeus enquanto rezam! Pode parecer absurdo pensar por esse ângulo, mas há muita gente por lá que associa o Heavy Metal à figura do 'Grande Satã' (leia-se Estados Unidos) que por meio deste estaria fazendo uso de uma tentativa sutil de corromper os princípios islâmicos. Partindo desse pressuposto e juntando as pecinhas desse quebra-cabeça, em lugares como o Irã, Iêmen e Arábia Saudita os adeptos do Metal são tratados como subversivos e criminosos, estando sujeitos às ações penais previstas na Sharia (lei islâmica).

Diferenças culturais e religiosas à parte, mesmo com as dificuldades existentes as bandas de heavy metal proliferam por lá. De Bagdá a Amã, de Riad a Karachi o número de bandas de islam metal cresce vertiginosamente, usando o YouTube e o MySpace como meio divulgador dentro de uma sociedade tão repressora.



Um dos principais expoentes desse movimento é a banda Acrassicauda (foto acima), grupo formado em Bagdá nos meados de 2000-2001. Na época, o regime do bigodudo-ditador Saddam Hussein não opunha restrições ao grupo mas, após a invasão americana em 2003 e a ascensão da influência xiita no país, a banda decidiu se refugiar na Turquia, aonde sobrevive fazendo pequenas turnês e vendendo seus discos em bancas de camelôs (sim, eles pirateiam os próprios discos, AHUAHUAHUA).

Porém, o que motivou o exílio da banda foi algo mais cruel do que a simples perseguição: em 2005, durante um show em pleno mercado central de Bagdá, o local foi atingido por uma bomba vinda da artilharia americana, que tinha recebido a informação de que haviam pessoas armadas no local!!! (N. do R.: típica reação desproporcional do 'poderosíssimo U.S. Army ¬¬).

Essa cena inclusive faz parte de um documentário criado pelo jornalista americano Spike Jonze, intitulado Heavy metal in Bagdah. O jornalista retrata na película a carreira da Acrassicauda, desde o cenário underground da Bagdá de Saddam até os dias de caos da desastrosa ocupação americana, culminando nos dias atuais em Istambul.



Acrassicauda no YouTube: música sem nome cujo título até nos comentários do site é pedido


Indo mais além, o jornalista e historiador americano Mark LeVine criou o livro Heavy metal islam: rock, resistance and the struggle for the soul of Islam, no qual faz um apanhado bem abrangente sobre essa nova faceta cultural do Oriente.


Traçando um inventário do heavy metal praticado no Oriente Médio, LeVine destaca o trabalho de uma porção de grupos dos quais provavelmente nem o mais fanático banger ocidental algum dia teve conhecimento de sua existência. Bandas como a Lazywall (Marrocos), Hate of Suffocation (Egito), The Kordz (Líbano), Junoon (Paquistão) e Arthimoth (Irã), entre outras, fazem parte desse cenário. O vocalista dessa última banda, a título de pitoresca curiosidade, costuma se apresentar com uma camiseta trazendo os dizeres وإلهكم إله والاموات ("Seu Deus Está Morto"). \,,/

Obviamente, o governo iraniano está em cima e, como todo bom 'Sistema', reage à sua forma. Agentes do Ministério da Cultura iraniano costumam confiscar os CDs de toda banda cujo guitarrista 'destrua' um pouco nos seus solos ou “enlouqueça” bastante no palco. É o que aconteceu com a O-Hum, banda cujo lote de 120 discos gravados no estúdio improvisado na casa do baterista foi recolhido pelo Ministério da Cultura.

Mesmo com a repressão galopante, a internet continua sendo o meio livre pra divulgação dos novos trabalhos. Assim fez a O-Hum, ao disponibilizar suas músicas no próprio site da banda (N. do R.: procurei essa podreira no Google, MySpace e o escambau pra poder linkar aqui, mas desconfio que o site dos caras esteja em árabe...). A Acrassicauda seguiu o mesmo caminho e, impulsionados pela boa repercussão que o documentário Heavy metal in Baghdah teve nos festivais de cinema de Toronto e Berlin, é a banda de islam metal de maior sucesso da atualidade.



Soashyant, do Irã. Thrash Metal em persa O.o


Talvez o que sirva de diferencial pra essas bandas, dentro de um estilo já tão segmentado quanto o heavy metal, acabe sendo justamente essa faceta mais 'engajada' que o islam metal esteja representando. Apesar de ter evoluído praticamente em separado do restante dos estilos do rock n' roll clássico, o heavy metal jamais perdeu o espírito de rebeldia e quebra de dogmas morais impostos pela sociedade que o bom e velho Rock sempre teve.

E na boa: nada mais enriquecedor pro cenário musical contemporâneo do que bandas de metal islâmico! Num gênero que acusam de estar saturado, é uma grata surpresa vermos grupos adeptos do estilo vindos de uma região aparentemente tão fechada aos costumes ocidentais.

Torço pra que esses bandas tenham seu devido reconhecimento e o material delas chegue até aqui de forma mais acessível. Seria até engraçado vermos elas sendo cultuadas como já são os grupos de Black e Viking metal: logo logo teríamos os tr00 islam metal, querendo banguear de véu ou turbante na cabeça :p

Afinal de contas: os muçulmanos curtem thrash metal a vera. Duvidam??? Como diria Marcelo Taz, Olha isso:





AHUAIHIAUHAIUHAIUAHIUAHIUAHAIUHAIUHAIUAHIUAHIAUHIAUHAIUHAIUAHIUAHIUAHIUAH




Fontes: IstoÉ e Wikipedia.



Um comentário:

  1. Poxa incrível como tem povo estúpido nesse mundo. e_e'
    Podendo "punir" por tantas outras coisas. Mas enfim, cada um com seu cada um né.

    E eu acho foda a idéia de divulgar a música no myspace. Eu vivo fuxicando as bandas que surgem por lá, só pra curtir e depois que ficarem conhecidas eu dizer "Ah-ha! Conheci no myspace quando nem faziam sucesso!"

    UHSAUHSA zoeira.
    Adorei esse post Fernando, muito bom!

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